Todos nós – pessoas, instituições, empresas – estamos vivendo hoje, de alguma forma, a necessidade de combinar uma compreensão ampla do mundo a uma atuação que parte de um olhar e de um sentimento nascidos do local em que vivemos, da nossa história particular. Isso que hoje é um atributo da contemporaneidade Rico Lins já vem trazendo ao campo do design gráfico há algumas décadas.
Trafegar entre culturas diferentes sem abrir mão da sua própria, trazer ao design gráfico uma forte dose de criação pessoal, beber no caos das ruas e do popular para escrever o erudito, prever e incentivar a interação com o usuário do seu projeto, recorrer à manualidade da tradição brasileira para compor o digital são práticas incensadas em nossa época que Rico aporta desde o inÃcio de sua caminhada.
Sua formação e inÃcio da atuação profissional ocorrem no Rio de Janeiro nos anos 1970, perÃodo de forte dominância da idéia de que o design deveria ser neutro, asséptico e asceta; uma visão importada, sem questionamentos, das tendências alemã e suÃça das artes gráficas. Já em seus primeiros trabalhos Rico se insurge contra essa visão, incorporando a casualidade e a riqueza da cultura das ruas para chegar a um resultado marcado pela experimentação e, sobretudo, pela invenção.
As temporadas estudando e trabalhando em Londres, Paris e Nova York o chamado circuito Helena Rubinstein, que durante tantos anos ditou tendências para o resto do mundo foram decisivos no alargamento de seus horizontes, na ampliação de seu conhecimento humanista e na diversificação de seu repertório. Nessas cidades, Rico esteve no olho do furacão, trabalhando em ou para instituições e empresas importantes  da gravadora CBS ao Beaubourg, o Centre George Pompidou; do The New York Times à Random House. Nelas, contudo, o designer não se deixou cair na armadilha daqueles que aderem a um estilo de vida e a uma linguagem internacionalista buscando um passaporte para o reconhecimento internacional. Antes, usou essa vivência para ampliar, de um lado, a sua compreensão da multiculturalidade como um dos fatores decisivos do mundo hoje e, de outro, para alimentar e treinar a sua liberdade criativa.
De volta ao Brasil, e desta vez para São Paulo, permaneceu aberto à s influências externas de um mundo em movimento e com fronteiras cada vez mais diluÃdas, a partir de um olhar pessoal e local – algo como a correspondência, no design, da parabólica fincada na lama com que o pernambucano Chico Science inventou uma nova sonoridade musical.
De seu estúdio paulistano, Rico atende a demandas diversificadas nas várias especialidades do design, incluindo livros, folhetos, cartazes, embalagens, sites, exposições, aberturas de programas de tevê e de filmes, ilustrações etc. etc. etc. A prática de um design múltiplo e consistente, capaz de conversar com outras formas de expressão, somar opostos e, assim, efetivamente falar à s audiências à s quais seus trabalhos são dirigidos, tem atraÃdo muitos empreendedores da área cultural sintonizados com as demandas da contemporaneidade. Sua trajetória o credencia a um amplo espectro de clientes, tanto daqueles brasileiros que querem falar a uma audiência internacional quanto dos estrangeiros que querem chegar mais fundo aos mercados emergentes da nova cartografia mundial.
Rico vem se situando desde os anos 1970 na ponta de lança da tradução na comunicação visual das noções de identidade, pertencimento, inclusão do espectador e construção de repertórios comuns, que hoje são a bola da vez dos departamentos de marketing das empresas. Esta exposição e este catálogo certamente permitirão um olhar abrangente sobre uma trajetória rica, e nos capacitar a trilhar, juntos, novos caminhos.
Adélia Borges é jornalista e curadora especializada em design. Foi diretora do Museu da Casa Brasileira (2003-2007) e editora de design do jornal Gazeta Mercantil (1998-2002).